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Remígio-PB, Paraíba, Brazil
Mestre em Letras pela UEPB e professor de Língua Portuguesa dos ensinos fundamental e médio. Meu interesse com esse espaço é poder divulgar e compartilhar com todas e todos minhas atividades escolares e questões objetivas de português para estudos voltados para concursos públicos e o ENEM.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

ATIVIDADE DE INTERPRETAÇÃO DE TEXTO APLICÁVEL DO 6º AO 8º ANO / O MOLEQUE E O BALAIO - FRANCISCO DE ASSIS MELO


Leia o texto abaixo:

O MOLEQUE E O BALAIO

          Todos os domingos ele acordava muito cedo. Às cinco da manhã já estava de pé, chovesse ou fizesse sol. Pulava da “tipóia”, enrolava-a e em seguida pendurava-a no armador da sala, onde dormia. Passava um pouco de água na cara sonolenta, pegava o seu balaio surrado e saía com destino à feira da fruta. No caminho cumprimentava uns, galhofava com outros colegas que já carregavam feiras e ia em frente.
           Alguns caminhões descarregavam abacaxis cujo cheiro adocicado impregnava o ambiente. Em muitos outros pontos, agricultores chegavam com suas éguas trazendo caçuás de bananas maduras que davam água na boca. Homens se espremiam tirando cargas de batata-doce do lombo dos jegues. O barulho da feira já era ouvido de longe. Tinha-se a impressão que o povo só comprava abacaxi, tamanhas eram as rumas que mais pareciam pirâmides auriverdes. E eram muitas.
           Tem frete, dona? Era a voz do pirralho de calças remendadas. Ante a afirmativa da patroa, a cara do menino era sorriso só. A boca, de dentes cariados, mostrava o tamanho da felicidade. Afinal de contas aquela mulher tinha jeito de quem pagava bem, e quem sabe, ainda oferecesse um café com bolo de farinha de trigo na casa dela. Primeiro os abacaxis, depois batata-doce, banana prata, laranja comum e cravo, macaxeira, manga e uma jaca mole pequena. E o balaio enchendo. Você pode mesmo, menino? Estou achando você tão magro. Aquela mulher estava duvidando da coragem? Conjecturava. Estava muito enganada! Vamos ver se pagava bem mesmo... Refletia em seus botões protegidos por rodelinhas de borracha.
            Depois de rodear toda a feira acompanhando a cliente pechinchona, atravessava o Beco do Jacaré e entravam no “comércio” (mercado público). Carne verde, miúdo, farinha, goma de Dona Tereza Gonzaga. E o balaio começava a estalar o fundo de cipó dilatado e gasto pelo sobe e desce dos domingos. Pra encerrar, agora era a vez das verduras. E se não aguentasse o peso? Valha-me Deus! Pensava o guri desconfiado e preocupado com o peso que só aumentava. Só faltava a cliente se engraçar de uma galinha gorda e resolver comprá-la. Era só o que faltava. Desse jeito não tinha quengo de cabeleira militar que aguentasse. Nem mesmo com o auxílio da rodilha de pano. Meu sinhô, me ajude aqui. Um verdureiro alto e forte botava a carga na cabeça. Parecia que o pescoço do coitado tinha sumido entre as costelas aparentes.
           Indicada a direção, seguia os passos apressados da mulher. O pior era a ladeira. Um gemido aqui, outro ali e chegava ao destino. Só dava tempo acertar com a mesa da cozinha e ia logo dizendo: quem me ajuda? Tirado o peso, era um alívio só. As pernas ainda tremiam. O pescoço aos poucos ia voltando ao normal. Um suor frio escorria por todo o corpo magricela, ainda em jejum. Um cheiro de leite fervendo vinha da caçarola destampada no fogão. Ainda bem que nada se amassou, não foi? Dizia o feireiro com ares de agrado. Bota café pra ele, Severina. Ordenava a matrona já no quarto onde fora tirar a blusa fedorenta a suor de feira. Mal a ordem era dada e o moleque já estava sentado à mesa, parecendo gente. Arre diabo, queimei a língua. Disse de si para si.  A empregada bem que podia ao menos ter avisado que o café estava fervendo. Terminada a refeição, recebia o preço do frete e saía feliz para outra aventura.
          Depois das nove o movimento ia caindo. Algumas feirinhas mais maneiras, e por isso mais baratas ainda haveriam de surgir durante o dia. Lá pras tantas só aparecia batateiro. Só compravam batata para a família, mas tapeavam dizendo que era tudo para os porcos.  Só sabiam mentir, isso sim. Além do mais pagavam uma mincharia pelo frete, resmungava o menino.
         Sentado no meio-fio, começava a fazer “o caixa”. Até que o dia não tinha sido tão ruim. Mas ainda restava uma alternativa: juntar casca de jaca para os porcos de Zulmira. Ainda podia render uns trocados. Era pouco, mas servia. Tudo que caísse na rede, era peixe.
         Quando o sol começava a se esconder pras bandas do Jacaré, era hora de voltar para casa.
         Uma voz disfarçada veio das suas costas: quer levar minha feira, menino? Que safadeza! Era outro moleque brincando de patrão.
                                                                                                                                        Itaporanga/84 

(Retirado de: Francisco de Assis Melo. Moleques do Palma. 2009)


1.       Com base na leitura do texto, responda:

a)   A voz que nos conta a história é de alguém que não faz parte dela ou pertence a algum personagem presente no texto? Justifique sua resposta com algum trecho do texto.

b)      De acordo com o texto, descreva o principal personagem da história.

c)       Sobre o que trata o texto?

d)      Podemos afirmar que o trabalho relatado no texto é uma atividade “pesada” ou fácil de realizar? Por quê?

e)      Segundo o texto, qual o item que as pessoas mais compravam em suas feiras?

2.       Deduza o significado das palavras destacadas nos fragmentos abaixo:

a)       “Todos os domingos ele acordava muito cedo. Às cinco da manhã já estava de pé, chovesse ou fizesse sol. Pulava da “tipóia”, enrolava-a e em seguida pendurava-a no armador da sala, onde dormia.”

b)      “Passava um pouco de água na cara sonolenta, pegava o seu balaio surrado e saía com destino à feira da fruta.”

c)       “Em muitos outros pontos, agricultores chegavam com suas éguas trazendo caçuás de bananas maduras que davam água na boca.”

d)      “Depois de rodear toda a feira acompanhando a cliente pechinchona, atravessava o Beco do Jacaré e entravam no “comércio” (mercado público).”

e)      “Só compravam batata para a família, mas tapeavam dizendo que era tudo para os porcos.”

3.       Há momentos no texto em que são misturados a voz do narrador com os pensamentos do personagem. Identifique a quem pertence cada fala nos trechos a seguir:

a)       “Todos os domingos ele acordava muito cedo.”

b)      “Tem frete, dona?”

c)       “Vamos ver se pagava bem mesmo...”

d)      “O pior era a ladeira. Um gemido aqui, outro ali e chegava ao destino.”

e)      “Arre diabo, queimei a língua.”

4.       Retire do texto o que se pede:

a)       Uma palavra ou expressão que indique tempo.

b)      Uma palavra ou expressão que indique lugar.

c)       Uma palavra ou expressão que indique uma emoção. Pode ser de raiva ou alívio.

d)      Uma frase interrogativa.

e)      Duas palavras compostas.

QUESTÕES PARA MARCAR APENAS UMA RESPOSTA

5.       De acordo com esse texto, a feira era um lugar

a) de poucas oportunidades de trabalho para as pessoas.
b) que não dispunha de variedade de frutas.
c) de tristeza por causa do trabalho duro.
d) de oportunidades de trabalhos.
e) roubos e exploração de trabalho.

6.       No trecho abaixo em destaque é sugerido que o menino terminou seu dia de trabalho

Sentado no meio-fio, começava a fazer “o caixa”. Até que o dia não tinha sido tão ruim.

a)       conformado
b)      desanimado
c)       muito feliz
d)      com raiva
e)      triste

7.       No trecho abaixo, a palavra destacada pode ser substituída, sem alterar o sentido do texto, por

“No caminho cumprimentava uns, galhofava com outros colegas que já carregavam feiras e ia em frente.”

a)       brigava
b)      brincava
c)       resmungava
d)      sonhava
e)      corria

8.       Esse texto tem o objetivo de

a) Divulgar a feira de Remígio
b) Orientar sobre a organização de uma feira
c) Relatar memórias vividas
d) Convencer o leitor a denunciar o trabalho infantil
e) Informar fatos passados da vida de alguém.

9. Observe a imagem abaixo:


O texto "O moleque e o balaio" e a imagem acima têm em comum

a) abordarem situações diferentes
b) a preocupação com a exploração do trabalho infantil
c) o alerta para os pais não deixarem seus filhos sozinhos nas feiras
d) nada, pois o instrumento de trabalho no texto é o balaio e nessa imagem são carroças de mão.
e) a ilustração que a imagem faz da temática tratada no texto.

10. O termo em destaque no fragmento abaixo pode ser substituído, sem alterar o sentido do texto, por:

"Depois das nove o movimento ia caindo. Algumas feirinhas mais maneiras, e por isso mais baratas ainda haveriam de surgir durante o dia. Lá pras tantas só aparecia batateiro. Só compravam batata para a família, mas tapeavam dizendo que era tudo para os porcos."

a) ou
b) pois
c) porém
d) então
e) para


GABARITO APENAS DAS QUESTÕES OBJETIVAS

5. D
6. A
7. B
8. C
9. E
10. C
“A vida é feita de histórias...”

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